Por décadas, gerenciamento de risco no transporte significou uma coisa: evitar que a carga fosse roubada. O painel que reuniu Grupo Apisul e Atvos mostrou outro número tomando a frente dessa conta.
Uma linha caindo, outra parada
Marco Aurélio Badim abriu contextualizando a escala da Apisul: 41 anos de mercado, 1.300 colaboradores, mais de 180 pontos de atendimento nas rodovias e uma base que monitora, em média, 5 milhões de viagens por ano.
Tamanho da empresa, não é efeito da tecnologia: é escala institucional.
É essa base de dados que sustenta o diagnóstico apresentado por Daniel Nobre, superintendente de Produtos Digitais e Tecnologia da Apisul.
"A gente vê com relação ao roubo de cargas uma redução significativa de 2024 para 2025 de 16,7%. Por outro lado, no que diz respeito a acidentes, o número permaneceu praticamente estável, porém o custo dos acidentes subiu astronomicamente, ultrapassando R$ 5 bilhões por ano no Brasil. A cada 8 acidentes, 1 resulta em vítima fatal."
Contexto de mercado, não é resultado da solução de Safety da Apisul.
O roubo está sendo controlado. O acidente, não. E é aí que a conversa muda de assunto.
O que acontece quando a solução funciona
Nas operações que contrataram o monitoramento dedicado da Apisul, o resultado aparece em número fechado.
"A gente teve uma redução do número de eventos de 8,4%, o valor de cargas envolvidas nesses sinistros teve uma redução significativa, o prejuízo estimado caiu drasticamente quase 24%. O prejuízo médio por evento caiu 17,4% e as perdas em si caíram 1,4 ponto percentual comparando um ano para o outro."
Operações que contrataram o monitoramento dedicado da Apisul.
Parte desse resultado não é só tecnologia. É resposta rápida no local: a reguladora de sinistros do grupo, a Excel, chega ao acidente antes que a carga seja saqueada.
60 mil litros de etanol por viagem
Daniel Cunha, da Atvos, trouxe a escala do problema real: cerca de 2.500 viagens de etanol por mês, mais 1.500 de açúcar VHP, em caminhões que carregam até 60 mil litros por viagem. Carga perigosa, em volume alto, rodando o país inteiro.
"A gente tem o desafio de chegar cada vez mais próximo dos motoristas, porque realmente é ali que faz a diferença."
O sinal que não chega
Existe uma ilusão de cobertura no Brasil: a maioria dos municípios tem sinal de celular, mas trecho de canavial, serra ou área florestal ainda cria sombra.
A Atvos resolveu parte do problema instalando Wi-Fi em suas oito unidades industriais, espalhadas por São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O caminhão entra no pátio, conecta automaticamente, descarrega vídeo e dado acumulado. Para o trajeto entre usinas, a aposta é conectividade via satélite.
Daniel Nobre foi direto sobre o que isso significa na prática: receber o vídeo com atraso não invalida o projeto de prevenção de acidentes, porque o que importa é reconstruir o comportamento do motorista ao longo da viagem, não reagir a um segundo isolado.
O ponto de atrito: quando o conforto vira risco escondido
Uma câmera de fadiga dispara alerta a cada bocejo de 2 segundos. O motorista se incomoda com o som constante na cabine. O transportador, pra reduzir o incômodo, aumenta o limite para 4 segundos.
"Uma fadiga tá configurada ali: se o motorista tiver um bocejo de 2 segundos, o transportador vai e altera isso para 4 segundos. Ou seja, vai reduzir o número de eventos no papel, porém o risco aumenta se a gente não levar em consideração esses pontos."
O relatório fica mais bonito: menos alertas no papel. O risco na estrada continua o mesmo, só que agora ninguém mais vê.
A resposta da Apisul é não mexer na sensibilidade do equipamento. A régua fica rígida no caminhão, e o excesso de alerta falso é filtrado depois, na nuvem.
A foto é uma coisa, o filme é outra
É a frase que resume toda a arquitetura técnica descrita por Nobre. A plataforma Apisul Integra, em desenvolvimento desde 2006, recebe o vídeo bruto de até 5 câmeras simultâneas e processa em menos de 20 segundos na nuvem, cruzando a imagem com telemetria, velocidade, frenagem, histórico do motorista.
"Uma frenagem brusca isolada pode ser uma manobra defensiva legítima; porém, se combinada a excesso de velocidade e uso de celular minutos antes, o risco é classificado no nível máximo."
Como funciona o Apisul Integra
Câmera grava o motorista e a rodovia
Vídeo bruto sobe pra nuvem, até 5 câmeras simultâneas
IA cruza o vídeo com telemetria dos últimos 30 min: velocidade, frenagem, histórico
Sistema gera um score de risco a partir do contexto completo
Bino liga pro motorista, ou o caso vai pra um operador humano
Um evento sozinho não diz nada. A combinação, sim.
Quando o sistema decide que algo precisa ser tratado, entra o Bino, agente de voz por inteligência artificial que liga automaticamente para o motorista ou o transportador. Trata o que é rotina. Libera o operador humano para o que exige julgamento.
O fator humano: o que a tecnologia sozinha não resolve
Fechando a apresentação, os dois palestrantes trouxeram o lado que nenhum painel de tecnologia costuma mencionar: saúde e vínculo do motorista.
"A tecnologia é a tinta da parede. Não adianta nada ter uma tecnologia ou uma torre de IA trabalhando se não houver processos estruturados, governança e respeito pelas pessoas por trás da operação."
Daniel Cunha, AtvosMini-glossário
- Safety
- Nome que o mercado deu à prevenção de acidentes de trânsito, em contraste com o gerenciamento de risco tradicional, voltado ao combate ao roubo de cargas.
- Falso positivo
- Alerta disparado por engano: um bocejo comum, uma sombra, um movimento de cabeça que a câmera interpreta como sinal de fadiga sem ser.
- Régua de sensibilidade
- O limite configurado no equipamento para disparar um alerta. Quanto mais frouxa, menos alertas aparecem, mas mais risco real passa despercebido.
- Apisul Integra
- Plataforma da Apisul, em desenvolvimento desde 2006, que recebe vídeo de câmeras veiculares e cruza com dado de telemetria para avaliar o contexto da viagem.
Sua operação ainda mede segurança pelo volume de roubo evitado, ou já olha para o acidente?


